Resenha: O Poço (2019)

  • Marina Moia

O Poço aborda egoísmo da humanidade em trama surpreendente

Que a humanidade pode ser muito egoísta, nós já sabemos. Que a divisão de classes existe e afeta negativamente milhões de pessoas, sabemos também. Mas o que acontece quando um filme se propõe a escancarar isso na tela? De forma sangrenta, cruel e surpreendente?

Em O Poço, Goreng (Ivan Massagué), personagem principal desta história, acorda numa cela cinza e escura, acompanhado de um senhor de idade. No meio da sala, um buraco enorme, retangular, por onde você pode enxergar tanto a cela de cima como a de baixo. Eles estão no 48º andar.

Trimagasi (Zorion Eguileor) é o nome do companheiro de Goreng e é ele que explica para o protagonista sobre a dinâmica do lugar. Ao soar a sirene, uma vez ao dia, uma plataforma enorme desce do andar de cima e se encaixa no buraco do chão. Nela, restos de comida, pratos sujos, copos quebrados, alimentos pisoteados. Trimagasi come com gosto o que está à sua frente, com Goreng observando assustado e enojado. 

Não é preciso de matemática para logo entender que aquela comida é o que restou do andar 47º, que comeu o que sobrou do andar 46º e por aí vai. Mas são quantos andares? Todos conseguem comer? Ninguém se importa com a higiene? São essas as perguntas que passam pela cabeça de Goreng e, consequentemente, a nossa.

A escolha dos andares para os prisioneiros é aleatória e dura por um mês inteiro. Você pode passar um desses meses no 6º andar e receber alimentos quase intocados. Ou também pode estar no 159º e receber apenas pratos vazios durante o mês inteiro.

O Poço, filme espanhol dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia e disponível na Netflix, utiliza o roteiro da prisão para escancarar o egoísmo humano dentro de uma óbvia divisão de classes. Se quem está no topo economizasse comida, sobraria para a cela seguinte e assim todos conseguiriam comer, pelo menos um pouco. Mas a pessoa abusa do seu privilégio ao se fartar de comida sem pensar no próximo, naquele que vai se alimentar dos seus restos.

Ao analisar o filme como obra cinematográfica, O Poço é um longa metragem que entretém ao nos deixar curiosos e fascinados com aquela realidade. É um daqueles filmes que nos dá tapas na cara ao mostrar, mesmo que numa situação absurda, como a nossa humanidade está se esvaindo. É pesado, é sangrento e mostra o pior (e até o melhor) que pode ser extraído de nós numa situação extrema.

Não vou falar sobre o desenrolar e muito menos o final do filme para evitar spoilers, mas já aviso que o encerramento de O Poço vai te deixar com muitas dúvidas e com teorias explodindo em sua mente, que vão desde metáforas à referências bíblicas. Por isso, ao assistir, preste atenção aos detalhes, às nuances. 

O Poço não é um filme que vai agradar a todos os espectadores, e talvez este seja o seu intuito, mas ele é importante por nos fazer enxergar de forma drástica situações que estamos vivendo na nossa realidade ou até que possamos viver um dia.