A inegável obsessão - O NBB

  • Lucas Rocha

17/06/2017 - A data que jamais será esquecida pelo bauruense. Sob os olhares de 5 mil torcedores no Gigantão, em Araraquara e de mais dezenas de milhares na cidade sem limites, O Bauru Basket derrotou o Paulistano por 92 a 73 e entrou definitivamente no hall dos campeões do NBB, após dois anos consecutivos batendo na trave sendo derrotado na grande final. A trave, aliás, apareceu diversas vezes no caminho dessa equipe durante a temporada.

Ainda no inicio, a Paschoalotto reduziu drasticamente seu investimento na equipe, deixando de ser o principal patrocinador naquele momento. Foram semanas tensas de indefinição, inclusive sobre a sequência da equipe em atividade.

Vieram os acertos com a comissão técnica (Demetrius, Hudson, André Germano, Bruninho e Rogerinho) e posteriormente com Alex, Léo Meindl, Jefferson e Hettsheimeir. Ricardo Fischer, dentro dos planos da equipe, decidiu ir para o Flamengo. Robert Day esperou muito, mas quando encontraram uma solução para sua permanência, já era tarde. A decisão já estava tomada. Day partiu rumo aos Estados Unidos decidido a encerrar sua carreira como jogador. Valtinho e Shilton chegaram com sede de títulos, agregando um caráter vencedor que a equipe precisava naquele momento de incertezas. Somados a eles, também chegou uma geração quente na base para completar a equipe adulta, nomes como Stefano, Gui Santos, Henrique, Gabriel Jau e Maikão (in memorian).

Os garotos que conquistariam o Campeonato Paulista sub-19 no fim de 2016, abriram os trabalhos no estadual adulto, enquanto Alex, Hettsheimeir e o técnico Demétrius estavam com a Seleção nas Olimpiadas e os outros estavam aprimorando a parte física. As derrotas em sequência, algumas delas acachapantes vieram. Processo natural tendo em vista a diferença entre as equipes, mas as criticas foram pesadas, muito por conta da comunidade bauruense não aceitar de forma alguma um time que não seja competitivo.

O tempo passou, os adultos entraram, Roy Booker também foi contratado e o time chegou a final do campeonato, derrotando Pinheiros nas quartas e Franca na semi. Mogi seria o adversário na decisão, a trave apareceu novamente. Mesmo tendo feito dois jogos muito equilibrados, Bauru foi derrotado na melhor de três e ficou com o vice-campeonato. 

A derrota ligou o alerta da necessidade de mais revezamento para o time. Na semana de estreia do NBB 9, Roy Booker acabou desligado e dois jogadores vindo do recém desativado time de Rio Claro chegaram, Gege e Gui Deodato. Gui, um prata da casa, já sabia como a banda tocava aqui em Bauru. Gege, naquela época tetracampeão nas últimas 4 edições do NBB com o Flamengo, logo em sua apresentação, chegou com discurso de ser CAMPEÃO.

Isso mesmo, longe do politicamente correto. "Eu vim aqui para ser campeão" isso ficou na minha cabeça por meses. Talvez naquele momento poucos acreditassem como Gege. O tempo provaria que ele estava certo. Veio o NBB e a equipe fez um primeiro turno muito irregular, Hettsheimeir estava liderando a liga em pontos e rebotes, mas Alex e Léo Meindl haviam se machucado logo nas primeiras rodadas em um jogo contra o Paulistano, depois Gui Santos rompeu o ligamento cruzado em uma partida contra o Vasco, esse time demorou a estar completo e encaixar na forma competitiva que todos desejavam, chegando inclusive a ter duas derrotas bastante traumáticas para Minas e Brasília antes do natal na Panela.

O time saiu vaiado em ambos os jogos, mas era importante ver naquele momento o incomodo no olhar e nas ações de todo mundo, eram jogadores cascudos, acostumados com pressão e completamente desacostumados a derrotas. O saldo naquele fim de primeiro turno era de apenas oito vitórias em 14 jogos.Antes do returno, a trave mais uma vez estava em nosso caminho. Rafael Hettsheimeir, que já recusara proposta de uma equipe lituana cerca de dois meses antes, aceitou uma oferta do Fuenlabrada e partiu seu retorno ao basquete espanhol.

Coube a Shilton, a função de ser o grande xerife do garrafão bauruense e substituir Rafael dentro de suas características. O time mudou muito taticamente, passou a ser mais vigoroso no rebote e muito mais intenso nessa relação defesa-contra ataque.

O resultado veio de cara, seis vitórias consecutivas na abertura do returno, tomando menos de 70 pontos em todos esses jogos. A confiança tinha retornado, mas o basquete nunca foi uma ciência exata. Derrotas para Caxias, Mogi e Brasília custaram a Bauru estar fora dos 4 primeiros.

Em 5° lugar, o time precisou jogar oitavas de final contra Macaé, do baixinho e imparável Kendall Anthony. 3 a 0, mas todos os jogos decididos nos minutos finais e na força do elenco bauruense.

Brasília era o adversário nas quartas, um timaço com Fúlvio, Deryk, Guilherme Giovannoni e Lucas Mariano, todos em grande fase. Na primeira partida em Bauru, deu Brasília. A situação que ja era dificil havia ficado ainda mais complicada. Agora, Bauru precisava vencer pelo menos duas vezes na casa do adversário para se classificar.

Muitos desistiram ali, o time não. Demétrius sacou do bolso uma carta pouco conhecida até então, Gabriel Jau. Ou podemos defini-lo como "moleque carudo da porra", mesmo sem tanto tempo de quadra durante a temporada, assumiu a responsabilidade na segunda partida em Brasília, marcou 17 pontos e ajudou Bauru a empatar essa série.

O que era dito impossível, aconteceu. Bauru ganhou novamente em Brasília, 2 a 1 na melhor de 5. Agora é só fechar em Bauru! Moleza? Negativo! Jogo duríssimo novamente, decidido na última bola, o arremesso de Lucão rodou e saiu. A panela explodiu. Uma comemoração poucas vezes vista. Aquele time que poucos acreditaram estava na semifinal mais uma vez. Por coincidência do destino, os outros três favoritos Flamengo, Mogi e Franca também foram eliminados nas quartas pelas equipes que tiveram campanha inferior.

Agora sim vai ser moleza! Errados novamente!Tinha um Pinheiros no caminho, com Desmond Holloway, MVP dessa edição do NBB, também vivendo grande momento. Bauru flertou em vários momentos com a eliminação nessa série. Perdeu as duas primeiras partidas na série, a segunda terminando em confusão nas arquibancadas da Panela, confronto entre torcedores de Bauru e torcida do Pinheiros, o balançar da bandeirinha que queira ou não, deixou o time bauruense com ainda mais vontade de vencer aquele campeonato.

Na terceira partida, novamente o Pinheiros ditou o ritmo no início. 12 pontos de vantagem no intervalo do jogo. O vestiário ferveu. Bauru voltou outro time e com atuação iluminada de Jefferson, virou o placar e ainda botou 20 de vantagem, virada categórica. 2x1, lá vamos nós para São Paulo. 10 pontos de vantagem para o Pinheiros faltando 8 minutos para o término do jogo, mais uma situação duríssima para aquela equipe vivenciar. A virada veio mais uma vez, Jefferson matou as bolas decisivas, Alex garantiu defensivamente o sucesso da equipe em cima de Holloway e o time venceu. 2x2! Só acaba com 3! Agora é na Panela!

Jogo muito nervoso mais uma vez, amarrado, as equipes sofreram para ulltrapassar os 60 pontos. Valtinho com sua categoria invejável fez o arremesso decisivo e sacramentou a segunda virada do Bauru Basket naqueles playoffs e a classificação para a grande final. Aliás, como jogou Valtinho naquela fase decisiva do campeonato. Um encerramento de carreira a altura do tamanho que ele teve para o basquete nacional. 

O adversário na decisão era o Paulistano, comandados por Gustavo de Conti, os garotos Yago, Pecos, Georginho e Lucas Dias vinham com muita confiança, uma mescla interessante com caras mais experientes como Eddy, Guilhermão, Renato Carbonari e o argentino Hure.

Nas duas primeiras partidas, novamente Bauru não esteve bem. O Paulistano abriu 2 a 0 e se aproximou do título.Um agravante também circulava a cabeça de todos após a derrota na segunda partida, agora as partidas decisivas não poderiam mais ser jogadas na Panela. Araraquara virou a caverna do Dragão.

Ali começou mais uma virada, com todo respeito ao Paulistano, a partir do momento em que Bauru encaixou taticamente uma defesa com trocas, forçando o 1x1 dos jogadores adversários, não deu jogo.Três vitórias tranquilas para Bauru saborear o maior título de sua história.

Depois de tantas tentativas na trave, dessa vez bateu na trave e entrou. O agora papai Gege estava certo. Esse era realmente um time campeão.