Parlamentares criticam centralização de decisões e incertezas na abertura de leitos para Covid-19

  • Lucca Willians

No Rol de Oradores, vereadores pediram do Poder Executivo amplo diálogo para a construção de um plano gradual e responsável de retomada das atividades, mas inércia na ampliação da retaguarda hospitalar um mês após o inicio das restrições é apontada como impasse

A centralização do Poder Executivo na tomada de decisões e até a blindagem de informações aos vereadores sobre as estratégias da administração para o enfrentamento à COVID-19 em Bauru foram pontos recorrentemente abordados no Rol de Oradores da Sessão Legislativa Extraordinária realizada hoje, em ambiente virtual. As indefinições em torno da proposta do Hospital da Campanha Municipal e cobranças por um plano de retomada gradual das atividades, previamente dialogado com os setores envolvidos, também foram destacadas por parlamentares nesta quarta-feira (15/04).

Presidente da Casa, José Roberto Segalla (DEM) endossou a maioria dos discursos e defendeu que o governo amplie o leque de especialistas, pesquisadores e setores consultados.

Primeiro a falar, Mané Losila (MDB) acusou falta de sinergia sob a liderança do prefeito Clodoaldo Gazzetta e destacou que, se tivesse oportunidade, a Câmara teria condições de colaborar de forma mais efetiva.

Ele lembrou que a abertura de 40 leitos no Hospital das Clínicas, que receberá pacientes com outras patologias para viabilizar a ativação de mais 27 vagas de UTI no Hospital Estadual, ficou aquém dos 172 projetados pelo Departamento Regional de Saúde (DRS).

Nesse sentido, Losila teme que a não concretização do Hospital de Campanha Municipal em breve intervalo de tempo pode tornar o projeto inviável futuramente, quando, no ápice da crise no Brasil, deve elevar a procura e o preço por estruturas e equipamentos – como ocorreu no caso da tentativa de aquisição de 30 mil testes rápidos pela Prefeitura.

Ao defender que os 50 leitos emergenciais anunciados pelo prefeito sejam montados nas instalações do Lauro de Souza Lima, Coronel Meira (PSL) relatou ter conversado com o secretário municipal de Saúde, Sérgio Henrique Antônio, pouco antes do início dos trabalhos.

A posição externada pelo gestor ao parlamentar de que o Hospital de Campanha não seria necessário neste momento despertou contundentes questionamentos por parte da vereadora Chiara Ranieri (DEM).

A parlamentar observou que, desde o início da pandemia, o discurso da administração foi de que o isolamento social e as restrições para o funcionamento de estabelecimentos comerciais e de serviços eram cruciais para que o poder público ganhasse tempo em preparar a estrutura hospitalar para garantir o atendimento a pacientes em estado grave. Citou ainda que, em cidades menores, como Assis (SP), já há hospitais de campanha sendo montados.

Chiara questionou a razão de todo o sacrifício dedicado por empresas e trabalhadores até o momento, se, um mês depois, nada de concreto foi feito neste sentido e, agora, o governo alega não ser necessário o Hospital de Campanha. “Só vimos anúncios vazios”, frisou, ao reiterar que Bauru vive do comércio.

Retomada gradual

Reiterando a importância de que sejam seguidas todas as orientações sanitárias, a vereadora Telma Gobbi (PP) lamentou a inexistência de um cronograma previamente discutido para a retomada responsável e gradual das atividades.

Sandro Bussola (PSD) fez considerações na mesma linha e frisou a importância de que o Poder Executivo abra o diálogo com as entidades representativas das atividades econômicas e da sociedade civil para construir alternativas para depois do dia 22 de abril, quando vence a quarentena imposta pelos governos municipal e estadual.

Críticas

Telma e Meira teceram ainda críticas a decisões e condutas da gestão Gazzetta. Médica, a vereadora frisou que a compra de um tomógrafo – equipamento que não conclui o diagnóstico de COVID-19 – não era prioridade.

Já o parlamentar do PSL questionou a inexistência de um plano de contingência para o corte de despesas, já que o próprio governo, sem explicar critérios, estima perder R$ 200 milhões em receitas ao longo de 2020.

José Roberto Segalla, por sua vez, observou que nem mesmo o poder público cumpre todas as suas orientações, pois servidores estão nas ruas executando serviços não essenciais, como pintura de guias, e são transportados em veículos, onde o distanciamento mínimo de um metro e meio entre as pessoas não é respeitado.

Para Edvaldo Minhano (Cidadania), as ações e os movimentos do Executivo no que se refere à COVID-19 têm ganhados contornos cada vez mais eleitoreiros e outros problemas graves, sido negligenciados.

Fome

Reiterando a falta de satisfações dadas pelo prefeito aos vereadores, Ricardo Cabelo (PRB) se pronunciou sobre o agravamento dos problemas sociais, da miséria e da fome, e da incapacidade da administração em dar respostas a essas demandas urgentes.

Natalino da Silva (PV) reiterou a observação e as dificuldades enfrentadas pela população mais vulnerável em contatar os canais dos serviços públicos competentes.

Miltinho Sardin (PTB) pontuou que a busca por refeições a baixo custo no Bom Prato, no Centro da Cidade, tem gerado aglomerações em filas.

Yasmim Nascimento (PSDB), por sua vez, enalteceu o papel que vem sendo desempenhado pelo Ministério Público no projeto “Coronavida”, em parceria com o Fundo Social de Solidariedade.

Educação

Presidente da Comissão de Educação e Assistência Social, o vereador Fábio Manfrinato (PP) comentou sobre dúvidas e dificuldades de famílias acerca do recebimento de cestas básicas e kits alimentares direcionados a alunos da rede pública de ensino inscritos no Bolsa Família, e sobre as perceptivas de adoção do ensino à distância pelas escolas municipais.

Ponderações

O vereador Francisco Carlos de Góes – Carlão do Gás (DEM) destacou as proporções e a gravidade da pandemia no Brasil e no mundo, ponderando que Bauru tem feito sua parte.

Markinho Souza (PP), por sua vez, classificou como importante conquista a esperada breve ativação dos leitos no Hospital das Clínicas, que, em seu entendimento, ficarão como legado para a cidade após anos de reivindicações, para, gradualmente, no pós-crise, ampliar suas atividades e capacidade de atendimento.

Líder do governo, ele frisou que o prefeito Gazzetta está à disposição para se reunir com os vereadores após o término das Sessões Legislativas Virtuais.