Alunos da USP utilizam empreendedorismo para melhorar a vida de 14 mil pessoas

  • Lucca Willians

Mais de 20 projetos liderados por estudantes buscam impactar as comunidades onde estão instalados campi da universidade (Foto: Divulgação | Enactus FEA-RP)

Estudantes de diversos campi da Universidade de São Paulo (USP) atuam para levar o conhecimento apreendido em sala de aula para quem precisa e lideram mais de 20 projetos de empreendedorismo social que buscam melhorar a vida da comunidade.

O grupo integra a Enactus, uma organização internacional sem fins lucrativos dedicada a inspirar os alunos a melhorar o mundo por meio da ação empreendedora. A entidade, presente em mais de 30 países, fornece uma plataforma para os universitários “criarem projetos de desenvolvimento comunitário que colocam capacidade e talento das pessoas em foco”, segundo a Enactus.

Os estudantes da USP que integram a Enactus estimam que cerca de 14 mil pessoas são impactadas por projetos e campanhas organizadas. As ações são amplas, vão desde aulas de culinária a deficientes visuais até ação que oferece melhores condições de moradia às pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade socioeconômica, de acordo com reportagem do Jornal da USP.

Anualmente, a Enactus Brasil organiza um evento nacional para que equipes de universitários do país apresentem seus projetos que são avaliados por executivos. O último foi realizado em julho e quatro iniciativas da USP foram premiadas.

São Carlos

O projeto Domus, da Enactus Campus São Carlos da USP, foi criado em 2019 para atender moradores do acampamento Capão das Antas, um assentamento com 216 famílias que residem em moradias precárias. Muitas casas foram construídas com MDF e madeira serrada, o que deixa frestas nas paredes e facilita a entrada de animais, como aranhas e escorpiões.

Outro problema é a ação do tempo: calor, frio, chuvas. O projeto Domus fez um estudo para melhorar as moradias a partir de materiais de baixo custo e com fácil execução. A solução encontrada foi usar embalagens cartonadas, aquelas de suco e de leite, como um isolante térmico, tampando as frestas das casas.

A primeira aplicação começou no fim do ano passado com o revestimento de uma área de nove metros quadrados. Para isso, foram necessárias 1.182 embalagens cartonadas. “Essa ação foi essencial, pois conseguimos comprovar a diminuição de 4°C no ambiente interno em relação ao ambiente externo”, diz ao Jornal da USP Letícia Mello, estudante do curso de Engenharia Civil da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP e líder do projeto.

Por conta do isolamento social em razão da pandemia de COVID-19, o grupo teve que interromper suas atividades na comunidade, porém continuou atuando, desta vez, na arrecadação de caixas de leite e de suco para poder atender mais moradias. Com a ajuda de nove membros, já foram coletados materiais suficientes para revestir oito casas. Os integrantes do projeto esperam atender todas as casas do assentamento.

De acordo com Letícia, a iniciativa “é uma oportunidade de compartilhar os conhecimentos que adquirimos dentro da universidade pública com os que raramente têm oportunidade de acesso a ela, além de gerar impacto positivo para a vida de muitas famílias, como maior qualidade de vida dos moradores, visto que uma casa mais confortável é capaz de trazer convívio familiar mais harmônico, além da segurança que os moradores terão ao não sentirem medo em dias de chuva”.

Piracicaba

O Projeto Meraki, criado pela Enactus da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, oferece oficinas de culinária a jovens e adultos com deficiência visual, buscando a inclusão no mercado de trabalho. São dez alunos por turma, o curso tem duração de quatro meses e ensina receitas culinárias, além de aulas de higienização e de empreendedorismo.

De acordo com Maria Luiza, aluna do curso de Engenharia Agronômica e coordenadora da iniciativa, o projeto empodera os deficientes visuais. “Mostramos a elas que podem desempenhar atividades ditas como ‘simples’, como cozinhar. É dar o poder para que percebam a habilidade que possuem independentemente das limitações que a deficiência pode impor”, afirma ao Jornal da USP.

As aulas são ministradas nas cozinhas das instituições frequentadas pelos deficientes. Para isso, os seis voluntários da Enactus Esalq tiveram que adaptar as receitas e as formas de ensinar conforme as necessidades dos atendidos.

Em meio à pandemia, o grupo está produzindo um material que será disponibilizado em uma plataforma de cursos virtuais, mostrando receitas, experiências e metodologias aplicadas no curso para que escolas e instituições que atendam deficientes visuais tenham acesso e possam reproduzir esse projeto.

Lorena

O Projeto Cigana, da Enactus da Escola de Engenharia de Lorena (EEL) da USP, se propõe a levar oportunidades a pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Por meio de uma oficina de panificação e empreendedorismo, as pessoas aprendem a fazer pães e se organizam para comercializar o alimento.

A iniciativa desenvolveu técnicas de panificações que buscam formas de consumo e produção sustentáveis. Para isso, criou receitas de pão tendo como principal ingrediente o bagaço de malte, resíduo que costuma ser descartado pela indústria cervejeira. De acordo com Yasmin Takeiti Chagas, líder do projeto, em entrevista ao Jornal da USP, esse resíduo é “rico em fibras, o que torna a receita nutritiva, saborosa, inovadora e com alto valor agregado, trazendo até 850% de rentabilidade”.

Com a contribuição de alguns parceiros da cidade de Lorena, como o Fundo de Solidariedade e o Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) do município, 121 pessoas participaram das oficinas. Cerca de 37 kg de malte foram reutilizados pelo projeto, resíduo gerado pela produção de aproximadamente 200 litros de cerveja.

Esse material é doado por algumas empresas parceiras do ramo cervejeiro. “Além de enxergarmos o empreendedorismo como a melhor ferramenta para fazer a diferença na realidade de muitas pessoas, um dos nossos principais pilares é o meio ambiente. Então a questão ambiental e de sustentabilidade são essenciais em nossos projetos”, afirma Yasmin.

Ribeirão Preto

O Projeto Ongariar, da Enactus FEA-RP, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA-RP) da USP, em Ribeirão Preto, oferece metodologia de mentoria para organizações do terceiro setor. Ele surgiu em 2019, em parceria com a Associação Comercial de Ribeirão Preto. A iniciativa oferece um curso presencial totalmente gratuito para 15 ONGs que são acompanhadas junto com professores da Universidade.

Buscando democratizar o acesso aos conteúdos, o projeto iniciou a disponibilização do material através de uma plataforma online. Apesar da pandemia, cerca de 75% das aulas já estão preparadas para acesso de forma remota, que poderá ser feito a partir de meados de agosto na plataforma Coursera.

Para Pedro Rezende, membro do Projeto Ongariar, em entrevista ao Jornal da USP, “o diferencial do projeto está na criação de uma rede que envolve as organizações do terceiro setor, professores de diversas áreas e conhecimentos, associações e empresas parceiras. Na qual o gestor, além do conhecimento adquirido durante o curso, ainda pode trocar informações e experiências”.

Ao menos 17 gestores foram certificados, tendo impactado indiretamente 587 pessoas envolvidas com as organizações, de acordo com Pedro Rezende.