Crítica: The Big Lebowski & Once Upon a Time in Hollywood

  • Lucca Willians

Dois dos meus filmes favoritos, O Grande Lebowski (1998), Irmãos Coen e Era uma Vez em Hollywood (2009), Quentin Tarantino, são dois filmes atípicos, daqueles que a gente não tem muita certeza do arco dramático. São filmes que fogem do modelo tradicional Hollywoodiano, que ironicamente se passam em Los Angeles, não mantém uma estrutura clássica, nem uma progressão de jornada do herói aos moldes tradicionais. Ambos os filmes, embora façam alusão a outros gêneros e estéticas cinematográficas como o western e o cinema noir, não tem seu foco em nenhuma lógica de urgência. Não há nenhuma espada de Dâmocles balançando sobre as cabeças de suas personagens ou mesmo seguem a ferro e fogo nenhum tropo ou regras que definem gênero.

Embora  O Grande Lebowski faça alusão direta ao filme clássico do cinema noir The Big Sleep (À Beira do Abismo, Howard Hawks, 1946), seus paralelos com o cinema escuro das décadas de 40-50 são em geral para zoar da teatralidade do drama humano e a figura do macho man, tal como a atitude do detetive hard boiled (detetive durão), que em O Grande Lebowski é substituída pelo The Dude (O Cara), um sujeito atrapalhado que, nas palavras de Roger Ebert, "Foi para Woodstock e nunca voltou".

A obra dos irmãos Coen ainda nos apresenta os niilistas, um grupo que supostamente não vê qualquer sentido ou utilidade na existência humana e tenta extorquir o Grande Lebowski. É Importante aqui explicitar que o Grande Lebowski e o The Dude são dois personagens diferentes com o mesmo sobrenome, Lebowski, sobrenome o qual dá início à confusão que desenrola o enredo do filme. A figura do Grande Lebowski e do The Dude são colocadas como opostos, o homem rico, macho, conservador, dramático versus o hippie liberal, ambos de certa forma colocados como uma crítica aos seus respectivos lados. Se o cinema noir refletia a máxima de Nietzsche "Deus está morto, nós o matamos"  assim como o pensamento dos existencialistas da época, podemos dizer que O Grande Lebowski pergunta: Mas qual a finalidade disso tudo? Qual o sentido?

Se em O Grande Lebowski a figura do macho man e a atitude blasé do The Dude conflitavam, em Era uma Vez em Hollywood elas andam de mãos dadas. Brad Pitt interpreta o personagem Cliff Booth, o homem cool que não se abala, mas que leva a vida de forma descontraída, bem como o The Dude. Já Leonardo DiCaprio incorpora Rick Dalton, o típico ator de faroeste, corservador, que detesta hippies e não se encaixa nos novos tempos de uma Hollywood mais liberal e por isso se encontra em crise em sua carreira. Rick Dalton interpreta o homem que banca o macho, o cowboy, nos filmes que faz, mas que fora das telas do cinema, entre seus surtos e chiliques, acaba se aproximando da figura do desajeitada do The Dude. Era uma Vez em Hollywood não parece criticar a figura do homem macho em si, mas a desconstrói como uma faceta.

Em sua tentativa desesperada de manter sua imagem de cowboy, Rick Dalton acaba cedendo aos faroestes spaghetti e as mudanças da moda de uma Hollywood que está entrando no universo hippie no final da década de 60. Enquanto Cliff, a figura do duble macho que não se abala por nada também beira o cômico, pois sua atitude cool acaba resultando em mais problemas para ele do que qualquer outra coisa, mas fazer o que, ele apenas dá risada, aceita que a vida é o que é e acende seu cigarro mergulhado em lsd que comprara de uma hippie no centro da cidade. Rick, a estrela de Hollywood que faz birras e dá chilique e Cliff, o macho cool, aqui são melhores amigos, cuidam um do outro em um bromance enquanto tentam se adaptar aos novos tempos.

Assim como O Grande Lebowski, Era uma Vez em Hollywood também faz alusão a outro filme: Once Upon a Time in the West, de Sergio Leone, 1968. Porém, muito além de influências de um gênero ou um estilo, e a razão pela qual eu trouxe estes dois filmes na crítica de hoje, é que o filme de Tarantino parece responder as perguntas do filme dos Coen. Apesar de ser um corpo estranho na lista de filmes de Quentin Tarantino, Era uma Vez em Hollywood mantém pulsante o amor pelo cinema que o diretor tanto transmite em suas obras e aqui mostra-se como a finalidade disso tudo. A cultura pop, a filosofia de vida do cool e o próprio cinema é o que, no universo de Tarantino, traduz significado e sentido para a vida de seus personagens, que refletem quem somos; nós que nos alimentamos dessa cultura de mídia. E é para o cinema que Tarantino assina essa carta de amor, pois essa é sua paixão, é o que dá sentido e propósito em sua vida.