Comissão Processante: Olga Mattosinho diz que passagens eram pagas por Gasparini

  • Lucca Willians

Prestaram esclarecimentos, nesta terça-feira, testemunhas arroladas pelo próprio colegiado: motorista, ex-secretária e empresária relatam compra e venda de passagens em dinheiro, supostamente pagas pelo ex-presidente da Cohab; próxima fase será com testemunhas de defesa (Foto: Divulgação/Câmara Municipal de Bauru)

Foram realizadas, nesta terça-feira (08), as primeiras oitivas da Comissão Processante instaurada na Câmara Municipal de Bauru, em razão de denúncia relativa a viagens de agentes políticos supostamente pagas pelo ex-presidente da Cohab Edison Gasparini Júnior.

Os trabalhos foram conduzidos pela vereadora Chiara Ranieri (DEM), presidente do colegiado, que tem Coronel Meira (PSL) como relator e Edvaldo Minhano (Cidadania) como membro.

Foram ouvidas apenas quatro testemunhas arroladas pela própria comissão. As testemunhas de defesa que falariam hoje – todas indicadas pelo vereador Sandro Bussola (PSD), um dos três denunciados – tiveram seus depoimentos adiados para a terça-feira da semana que vem (15/12). Veja o cronograma completo

Isso porque a CP acolheu pleito do advogado de Bussola, Milton Dotta Junior, para que não ocorrem oitivas com as testemunhas de defesa antes que aquelas que pudessem desempenhar papel de acusação prestassem esclarecimentos no processo. O parlamentar acompanhou os trabalhos pessoalmente.

Advogados que representam o vereador Fábio Manfrinato (PP), outro denunciado, acompanharam os trabalhos.

Já o prefeito Clodoaldo Gazzetta não constituiu defesa formal nem participou da audiência.

David Oliveira Bassoto

A primeira oitiva foi a do funcionário da Cohab David Oliveira Bassoto. Apontado em depoimento ao Ministério Público como o responsável por providenciar o pagamento de algumas passagens aéreas adquiridas junto à agência de turismo, ele negou conhecer pessoalmente a responsável pela empresa e disse jamais ter efetuado pagamentos em dinheiro ou para os quais não tenham sido emitidas notas fiscais em nome da Cohab.

A informação de que, algumas vezes, o pagamento providenciado por David teria se dado em dinheiro partiu de Angela Aiello, responsável pela empresa que emitia os bilhetes.

O funcionário da Cohab declarou à CP que a informação é inverídica e que, por esta razão, buscou constituir advogado para pleitear acareação sobre o assunto junto ao MP.

David disse ainda que seu contato com Angela Aiello se dava exclusivamente por telefone ou por e-mail; reiterou que não prestou serviços particulares para o ex-presidente da companhia, Édison Gasparini Júnior; e que, dentre as passagens pagas pelo órgão, nenhuma foi emitida em favor de vereadores ou quaisquer outros agentes políticos.

Luiz Antônio Mattiazzo

Já o motorista da Cohab, Luiz Antônio Mattiazzo, confirmou ter levado dinheiro para a agência de turismo de Angela Aiello.

Os valores em espécie, segundo ele, lhes eram entregues pela ex-secretária de Gasparini Júnior, Olga Mattosinho.

À CP, Mattiazzo relatou diferenças nos pagamentos de passagens compradas pela Cohab e daquelas pagas por seu ex-presidente.

No primeiro caso, o pagamento era feito por cheques e ele retornava à companhia com a respectiva nota fiscal.

No segundo, o pagamento era em espécie e lhe era entregue, na agência, apenas um recibo em nome de Gasparini.

O motorista afirmou que era requisitado a se dirigir à agência em frequência que variava de 30 a 45 dias; mas que, há cerca de dois anos, deixou de ser designado para este serviço.

Olga Mattosinho

Ex-secretária de Gasparini, Olga Mattosinho confirmou que concedeu entrevista ao site de notícias Contraponto, de responsabilidade do jornalista Nélson Gonçalves, a quem teria reiterado suas declarações ao Ministério Público, após ter sido por ele informada de que seu depoimento havia se tornado público.

À CP, ela reiterou que fazia em sua agenda [no referido caso, do ano de 2019] anotações sobre passagens que eram compradas a pedido do ex-presidente da Cohab e pagas em espécie, com recursos disponibilizados por ele.

De acordo com Olga, as anotações tinham o objetivo de distinguir esse tipo de aquisição daquelas efetuadas e devidamente contabilizadas pela companhia.

A ex-secretária afirmou que dois desses nomes eram dos vereadores Bussola e Manfrinato – denunciados na CP.

Olga disse não saber precisar as datas de tais bilhetes aéreos e assegurou desconhecer a origem do dinheiro que lhe era entregue por Gasparini.

Relatou ainda que foi, algumas vezes, pessoalmente à agência de Angela Aiello efetuar o pagamento de passagens em dinheiro – mas não se recorda se foi ela quem levou o dinheiro das passagens supostamente compradas em favor dos dois vereadores.

A ex-secretária declarou também que a cobrança pelas vendas era feita por e-mails, nos quais era questionada a indicar quais seriam pagos pela companhia e quais pelo ex-presidente.

Mattosinho respondeu que, eventualmente, quando estava em férias, outra secretária (Cibele) desempenhava essa atividade.

Garantiu, por fim, que jamais requisitou passagens aéreas, nem compradas pela Cohab nem pagas por Gasparini Junior, em favor do prefeito Clodoaldo Gazzetta.

Angela Aiello

Responsável pela agência de turismo que vendia as passagens aéreas, Angela Aiello confirmou o teor de seu depoimento ao Ministério Público.

Disse que os bilhetes eram requisitados, na maioria das vezes por Olha Mattosinho, por telefone; e emitidos por e-mail.

A empresária confirmou ter vendido as passagens com os nomes de Sandro Bussola e Fábio Manfrinato; alegou que as mesmas foram pagas em dinheiro, por Gasparini e não pela Cohab; e que já disponibilizou toda a documentação ao Ministério Público.

A pedido do relator, Coronel Meira, comprometeu-se a fornecer o mesmo material ao colegiado, assim que oficiada.

Esclareceu que as vendas de bilhetes aéreos em nome do prefeito Clodoaldo Gazzetta se deram a partir de contrato firmado entre sua agência e a Prefeitura, por meio de processo licitatório.

Em sua oitiva, Angela reiterou que, além do próprio Gasparini, de Olga, do motorista Mattiazzo e de funcionário da Cohab de nome Marcelo, o também funcionário David Bassoto foi pessoalmente, em uma ocasião, pagar por passagens aéreas na agência de turismo (ao contrário do que o mesmo alegou à CP).

Falou que, em relação a agentes políticos, não emitiu bilhetes a outros destinos que não Brasília (DF).

Aiello disse também que, depois da deflagração da Operação João de Barro, pelo GAECO, em dezembro de 2019, não recebeu mais pedidos de bilhetes para serem pagos em dinheiro por Gasparini Júnior.

Respondendo a questionamentos da defesa de Sandro Bussola, afirmou dispor de apenas uma passagem em nome do vereador e que não tem como responder se o parlamentar efetivamente embarcou em voo da Capital Federal com destino final em Bauru; e que apenas a companhia aérea pode prestar esta informação.

A empresário assegurou, contudo, ser impossível que outra pessoa tenha viajado no lugar de Bussola, pois o bilhete é intransferível, segundo ela.

Em resposta à defesa de Fábio Manfrinato, Angela Aiello garantiu que desconhece a origem do dinheiro usado por Gasparini Júnior para pagar as passagens.

Não falaram

Constavam na programação de oitivas desta terça-feira (08) o jornalista Nélson Gonçalves – responsável pela primeira reportagem publicada sobre o tema – e o ex-presidente da Cohab, Edison Gasparini Júnior.

O primeiro alegou que estava disponível a colaborar na primeira data para a qual havia sido notificado (que precisou ser alterada por forças que independiam da vontade dos membros da CP), mas que, em 8 de dezembro, estava fora da cidade e em férias.

Colocou-se à disposição para ser ouvido na semana que vem, mas a comissão, durante os trabalhos de hoje, abriu mão de seu depoimento.

A mesma decisão foi tomada em relação a Gasparini, que sequer foi encontrado no endereço em que residia até a deflagração da Operação João de Barro.

Próximos passos

As primeiras oitivas de testemunhas de defesas estão mantidas para esta quarta-feira (09), a partir das 9h e a partir das 14h.

Veja o cronograma completo

Outras testemunhas arroladas por denunciados devem falar à CP na próxima terça-feira (15), a partir das 14h.

Na quarta-feira da semana que vem (16), a partir das 9h, a comissão pretende ouvir os três denunciados: o prefeito Clodoaldo Gazzetta; e os vereadores Sandro Bussola e Fábio Manfrinato.

Denúncia e Defesas

A instauração da CP foi aprovada pelo Plenário da Câmara Municipal de Bauru, acolhendo denúncia apresentada pelo munícipe Luiz Eduardo Penteado Borgo.

Tal denúncia é embasada em reportagem jornalística que trata de depoimento de ex-funcionária da Companhia de Habitação Popular de Bauru (Cohab) ao Ministério Público, no âmbito da Operação João de Barro, a respeito de viagens do vereador Sandro Bussola e do vereador licenciado Fábio Manfrinato, supostamente pagas por determinação do ex-presidente do órgão, Édison Gasparini Júnior.

Sobre o chefe do Poder Executivo, o denunciante alega que, caso comprovados os pagamentos, o prefeito pode ter se omitido ou negligenciado na "defesa de bens, rendas, direitos ou interesses do Município sujeitos à administração da Prefeitura".