Atlas da Violência 2020 chama a atenção para a violência contra a mulher

  • Lucca Willians

Foi divulgado, no mês de agosto, o Atlas da Violência 2020, documento que traça o perfil das mortes ligadas à crimes no Brasil. Realizado pelo Ipea (Instituto Brasileiro de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o levantamento deste ano apontou números preocupantes em relação à violência contra a mulher.

O Atlas traça os homicídios de mulheres em um geral e não faz um recorte específico em relação ao feminicídio (quando o crime se dá pela condição da mulher como tal).

O documento revela que uma mulher é morta no Brasil a cada duas horas e só no ano de 2018, mais de 4.500 mulheres foram assassinadas, sendo 68% das vítimas, negras.

Entre 2008 a 2018, o Brasil teve um aumento de 4% nos assassinatos de mulheres. Em alguns estados brasileiros, a taxa de assassinatos mais do que dobrou entre estes dez anos, como no Ceará, com aumento de 278% e Roraima, 186%.

Sobre os homicídios das mulheres negras, ainda neste período de 2008 a 2018, os números aumentaram 12,4%, enquanto as mortes relacionadas à mulheres não negras reduziram 11,7%. É importante ressaltar que no Atlas da Violência, a população negra é representada por negros e pardos e os não negros são os brancos, amarelos e indígenas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Fases da violência

A psicóloga norte-americana Lenore Walker identificou que as agressões cometidas em um contexto conjugal ocorrem dentro de um ciclo que é constantemente repetido. O chamado ciclo da violência conjugal que, em regra geral, se apresenta em três fases:

Aumento de tensão: as tensões acumuladas no quotidiano, as injúrias e as ameaças tecidas pelo agressor criam, na vítima, uma sensação de perigo eminente;

Ataque violento: o agressor maltrata física e psicologicamente a vítima. Estes maus-tratos tendem a escalar na sua frequência e intensidade;

Lua-de-mel: o agressor envolve agora a vítima de carinho e atenções, desculpando-se pelas agressões e prometendo mudar.

Marcela Purini, socióloga e executiva pública da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social (Seds), explica melhor essas fases: “Com o tempo, os intervalos entre uma fase e outra ficam menores, e as agressões passam a acontecer sem obedecer à ordem das fases. Em alguns casos, o ciclo da violência termina com o feminicídio, que é o assassinato da vítima”.

O papel da masculinidade saudável

A fim de prevenir e conscientizar a respeito da violência contra a mulher, a Seds constantemente promove discussões acerca desta temática.

Em uma conversa com a Ana Paula Romeu, psicóloga e especialista em Desenvolvimento Social da Seds, ela explica: “a incorporação dos homens e da perspectiva de gênero nos esforços de prevenção e atenção à violência contra as mulheres é essencial, e para isso devemos incluir uma reflexão sobre os processos de socialização masculinas e os significados de ser homem em nossa sociedade”.

Ou seja, para enfrentar e prevenir a violência doméstica, não é suficiente cuidar somente das vítimas. É preciso saber que masculinidades nossa sociedade está construindo e quem é esse sujeito que recorre à violência em suas relações.

“Portanto, prevenir é olhar para além das práticas punitivista/punitiva: agressor e vítimas. Prevenir é promover direitos”, completa Ana Paula.